sábado, 15 de agosto de 2009

E O CASARÃO DOS VERONESE...


... um dos imóveis mais expressivos do nosso município, tombado pelo IPHAE em 27/11/1986, erguido com os braços fortes e as cabeças empreendedoras dos nossos imigrantes, vai se esvaindo nas mãos do tempo...
Não podemos deixar de considerar as inúmeras iniciativas de muitas pessoas que acreditam no valor histórico e cultural de sua existência e que muito fizeram pela sua restauração, mas ainda não foi suficiente. Sabemos que são as pequenas ações individuais e coletivas que transformam o mundo, por isso, depois de tanto empenho, é hora do casarão receber as verbas necesárias para que não se torne uma ruína.
Fica nosso apelo, para que se faça algo de concreto e se torne aquele significativo imóvel num centro cultural. Um lugar onde a memória da imigração, as nossas raízes históricas, possam ser mantidas vivas e lembradas para as futuras gerações e para nós mesmos. Precisamos de referências identitárias, porque infelizmente, pouco a pouco, sofrendo inúmeros processos de aculturação, estamos esquecendo de muitas coisas que fundamentaram nossos saberes e nossos fazeres, valores que nos fizeram quem somos.
BREVE HISTÓRICO DO CASARÃO
A partir de 1875, com a grande imigração italiana para o Brasil, milhares de italianos aportaram no Brasil. Felice Veronese, natural de Monte Magre, Itália, se estabeleceu em 1882, no Travessão Marcolino Moura, 10ª Légua da Colônia Caxias. Felice além da liderança na região, foi grande produtor de uvas, vinhos, graspa e cachaça, e construiu a partir de 1895, uma casa de pedra, estilo da Idade Média, para servir de residência a sua família. Agrupou no mesmo imóvel, uma pequena vinícola e na parte externa, a exemplo das tradições italianas, uma estrebaria. Foi considerado como um dos mais significativos exemplares arquitetônicos na área da imigração italiana no Rio Grande do Sul, razão pela qual foi tombado no ano de 1986.
Em concordância a esse expressivo padrão, o arquiteto e escritor, Júlio Posenato declarou: “Penso que não se pode perder este casarão por vários fatores: tamanho, qualidade construtiva, estrutura do telhado, cozinha incorporada no prédio residencial e beleza, inclusive ornamentação em tijolos nas cimalhas, arco e chaminé.”
Além de toda a importância arquitetônica e cultural, destaca-se também pela importância econômica. Foi nessa casa que se criou a primeira pólvora da região e fábrica de foguetes e ainda se deu início aos primeiros passos para a indústria química. Com o crescimento dos filhos, a família transferiu residência para Caxias do Sul, tendo sido o imóvel, posteriormente de propriedade de Libânio Scur e Sétimo Galiotto.


Iniciativas e tratativas de tombamento e restauração:


1974-1975 – São publicadas as primeiras matérias sobre o Casarão, quando o Rio Grande do Sul começava a preparar as comemorações para o Centenário da Colonização Italiana no estado. Naquela época, o Casarão ainda se apresentava em ótimas condições estruturais, conforme as fotos publicadas pelos jornais O Vindimeiro e Pioneiro.
1980 - Iniciam as tratativas para o tombamento do imóvel. Foram feitos os levantamentos históricos, fotográficos, plantas arquitetônicas, via diversas Universidades, como a UNISINOS, UFRGS e UCS, além de trabalhos acadêmicos.
29/07/1986 – A Associação dos Amigos de Otávio Rocha solicita o tombamento do Casarão, através de ofício encaminhado pelo Município.
27/11/1986 – O casarão é tombado pelo IPHAE do Rio Grande do Sul, pela Portaria nº 44/1986. Foi o primeiro bem tombado pelo Estado na Região Colonial Italiana.
03 a 11 - 1988 - A arquiteta Sandra Barella participou do VI Curso de Especialização em Conservação e Restauração de Monumentos e Conjuntos Históricos na Bahia e trabalha sobre o projeto do Casarão dos Veronese. (Convênio FNPM/SPHAN/UFBA)
O Casarão já começava a apresentar problemas estruturais na cobertura, em função de um raio e infiltração de água.
21/07/1989 -A Universidade de Caxias do Sul em solenidade, entrega oficialmente, na Reitoria, o projeto de Restauração ao Município de Flores da Cunha.
23/07/1989 – Durante a Festa da Colônia de Otávio Rocha realiza-se solenidade de início das obras de restauração. Vieram recursos liberados pelo Governo Pedro Simon, mas como era época de grande inflação, apenas serviram para retirar o telhado, escoramento e a restauração foi abandonada.
No Governo Alceu Collares, houve uma ordem para o Município e o Estado providenciarem um telhado provisório para preservar a construção que estava no relento. A ação foi realizada pela Secretaria da Educação – Delegacia Regional de Caxias (Delegado Regional Sr. Chemello).
24/02/1993 - O Secretário de Turismo de Flores da Cunha, Carlos Raimundo Paviani, encaminha uma correspondência ao Promotor de Flores da Cunha comunicando o deprimente estado de conservação em que se encontrava o Casarão.
Na ocasião, o Ministério Público entra com uma Ação Civil Pública e a Justiça local condena Estado e Município a realizarem a restauração do Casarão. Estes por sua vez, recorrem ao Tribunal de Justiça do Estado.
13/09/1995 - O Tribunal de Justiça do Estado acolhe sentença da Justiça de Flores da Cunha.
2000 – Parecer do relator Ministro Nelson Jobim é acolhido pelo Supremo Tribunal Federal, e é confirmada pela alta corte, a condenação ao Município e ao Estado do Rio Grande do Sul de restaurar o Casarão dos Veronese, nos mesmos moldes arquitetônicos em que se encontrava.
14/06/2000 – Prefeito Heleno Oliboni, tendo em vista decisão do Supremo Tribunal Federal - STF nomeia uma comissão para avaliação do imóvel.
28/05/2001 – O Prefeito Heleno Oliboni declara de utilidade pública, para fins de desapropriação o Casarão e parte de gleba de terra. Decreto Executivo nº 2724. A Prefeitura deposita em Juízo os valores da avaliação. Contrata o arquiteto Evaldo Luiz Schumacher, via licitação pública, para fazer o projeto de restauro.
02/04/2004 - O Prefeito Heleno Oliboni encaminha ao IPHAE o projeto elaborado pelo arquiteto Evaldo Luiz Schumacher.
06/05/2004 - Por parecer desta data, técnicos do IPHAE não aceitam as propostas apresentadas pelo arquiteto Shumacher - que propunha a preservação do mesmo como ruína, e faz uma nova proposta de restauro.
18/05/2006 . O IPHAE aprova a proposta de restauro.
30/06/2006 – O IPHAE acusa que faltam vários documentos para serem encaminhados ao sistema LIC – Lei de Incentivo a Cultura/RS, entre eles os projetos estrutural, drenagem, fundações, SPDA, PPCI, instalações elétrica, Telefonia/Lógica, hidrossanitárias.
2008 – São executados os projetos: estrutural, drenagem, fundações, SPDA, PPCI, instalações elétrica, Telefonia/Lógica e hidrossanitárias.
2009 - São elaborados, pela Associação de Amigos de Otávio Rocha junto a administração municipal do prefeito Ernani Heberle projetos para captação de recursos via Lei de Incentivo à Cultura, do Governo do estado do Rio grande do Sul.
Imagem: Reportagem veiculada no Jornal Correio do Povo, em 15/08/2009.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Nosso Associado de Honra lança mais um livro!



Cooperativas Vinícolas de Flores da Cunha, mais uma obra de Floriano Molon, um dos mais expressivos pesquisadores da história do município de Flores da Cunha e da imigração italiana. Sinteticamente, o livro narra os problemas enfrentados pelos produtores de uva e vinho no final do século XIX, a vinda do advogado italiano José Stefano Paternò em 1911, que incentiva o surgimento do cooperativismo na região, bem como, o trágico esmorecimento desses ideais alguns anos depois. O ressurgimento dessas idéias por volta de 1929, influenciadas pela quebra da Bolsa de Nova Iorque o que motivou a fundação das cooperativas Forqueta/Caxias do Sul, Emboaba/Nova Milano, São Vitor/Caxias do Sul, Otávio Rocha/Nova Trento e de dezenas de outras a partir de 1930. Na mesma década de 1930, com apoio do Governador do Estado General Flores da Cunha e do Prefeito Heitor Curra, o cooperativismo recebe novo incentivo, mas não tendo linha férrea nem sistema de comunicação, em 1938, cinco cooperativas florenses: Otávio Rocha, 03 de Outubro da Linha 60, São João do Trav. Alfredo Chaves, Santo Antônio de Nova Pádua e Trentina de Flores da Cunha se unem em consórcio e instalam a nova sede em Caxias do Sul. Desta fusão surge a nova Santo Antônio, que monta sua sede à margem da malha ferroviária.
Resta-nos nossos mais sinceros cumprimentos por mais essa expressiva obra e indicação dela como uma preciosa fonte de pesquisa e legado histórico e cultural.
Os livros podem ser adquiridos pelo valor de R$ 5,00 (mais selo correio) através do e-mail: fmolon@cpovo.net ou nos Museus de Flores da Cunha e Otávio Rocha.
Abaixo uma, entre diversas cartas recebida pelo autor, fazendo considerações sobre sua pesquisa e colaboração com a preservação da história.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

MUSEUS A CEU ABERTO!


“Não se conhece uma sociedade enquanto não se estuda os seus cemitérios.” (Michel Vovelle)

Entre as lembranças dos moradores, diversos causos contados e recontados, que constituem o imaginário dos alicerces da história das comunidades. Sobretudo, informações de ordem estrutural, como a alteração do espaço físico, diretamente ligado ao processo migratório e ao êxodo rural do território.
Nesses lugares de memória, foram encontrados resquícios materiais, em volta do que podemos considerar cada sepultura um “monumento ao morto”. Cruzes, epitáfios e estatuária, remetendo o lugar exato onde ocorreu o sepultamento e mais que isso, nomes, datas e lembranças que os vivos querem deixar de seus mortos - fontes materiais que conferem certa imortalidade.
Por isso os cemitérios são considerados “museus a céu aberto. Porque neles podem ser encontradas diversas fontes de pesquisa tais como:
Fonte histórica para preservação da memória familiar e coletiva;
Fonte de estudo das crenças religiosas;
Forma de expressão do gosto artístico;
Forma de expressão da ideologia política;
Forma de preservação do patrimônio histórico;
Fonte indicadora da evolução econômica e dos padrões da população local;
Fonte para conhecer a formação étnica;
Fonte para o estudo da genealogia;
Fonte reveladora da perspectiva de vida;
Fonte reveladora das posições da população local perante a morte.
Nesse sentido, as informações são obtidas através da análise de epitáfios, de fotos tumulares, das simbologias nas obras funerárias e da expressão artística dos monumentos e mausoléus. Por isso, eles preservam a história de uma comunidade e são preciosas fontes, porque é nos cemitérios que as sociedades projetam seus valores, crenças, estruturas econômicas, sociais e ideológicas.
Danúbia Otobelli dan_belly@hotmail.com
Gissely Lovatto Vailatti gissely.lovatto@hotmail.com
Imagem: Capa do livro Benedictus: Arte, história e ideologia dos cemitérios de Flores da Cunha, escrito por Danúbia e Gissely e publicado em 07/11/2009.